Iodo: riscos e benefícios de sua suplementação



Virou moda recentemente a suplementação de iodo na forma de lugol (iodeto de potássio) , mas esta prática traz benefícios a saúde?
Pretendo responder a estas questões nesta matéria.

Vamos começar, falando um pouco sobre o Iodo.

Iodo é um mineral que no organismo humano tem como função prioritária participar do metabolismo tireoidiano. Ele é absorvido pelo organismo na forma de iodeto e seu transporte é influenciado pelo TSH ( hormônio estimulador da tireoide).

Nossa tireoide capta cerca de 60 microgramas de iodeto por dia. Este iodeto entra dentro da célula tireoidiana através de um mecanismo ativo denominado bomba de sódio/potássio-ATPase. Dentro da célula tireoidiana, este iodeto vai sofrer um processo de oxidação que envolve a tireoperoxidase e o peróxido de hidrogênio, sendo assim transformado em iodo reativo. Este, será incorporado a tiroxina através de uma substância denominada tireoglobulina, que formará moléculas com um iodo ( monotirosina) ou dois iodos (diiodotirosina).
Estas moléculas de mono e diiodotirosina vão sofrer novamente ação da tireoperoxidase, que neste momento  vai uni-las formando o T3 ( uma molécula de mono e uma de dioidotirosina, portanto 3 iodos) ou o T4 ( duas moléculas de diiodotirosina, portanto 4 iodos). Uma vez formados, eles caem na corrente sanguínea e fazem sua função, falo sobre isto, nesta matéria.

A deficiência de iodo, causa um mal funcionamento da tireoide, sendo responsável por patologias como bócio endêmico, Cretinismo, retardamento mental, mortalidade aumentada perinatal e infantil.

Várias partes do mundo apresentam quadro de deficiência de iodo, as mais afetadas são as regiões montanhosas da Índia e da China.
 O Brasil apresentou no  passado, casos de bócios endêmicos,  mas desde 1950 nosso governo regulamentou a adição de iodo ao sal de cozinha e desde então, tivemos este quadro reduzido bruscamente em nosso país.

O consumo médio de iodo, preconizado pela OMS é de :

- 90  µg por dia para crianças de 0 à 59 meses

-120 µg por dia para crianças de 6 à 12 anos

- 150 µg para maiores de 12 anos

- 250 µg por dia para mulheres grávidas e lactantes.

O maior aporte de iodo para grávidas e lactantes acontece porque a barreira placentária não permite a passagem de hormônio tireoidiano da mãe para o feto. Como o hormônio tireoidiano é imprescindível ao bom desenvolvimento fetal, o próprio feto fabrica seu hormônio, tanto que na 11ª semana de gestação, a glândula tireoide já está completamente formada. Eu disse que a barreira placentária não permite a passagem de hormônio tireoidiano, mas ela permite perfeitamente a passagem de iodo, sendo por este motivo o maior aporte de iodo materno, para completar a necessidade da mãe e da criança.

Ao nascer, a criança depende do aporte de iodo materno, tanto isso é verdade que no colostro, o primeiro leite, temos cerca de 200 a 400 µg/ litro e posteriormente este aporte cai para 146 µg/litro
.
Estudos recentes mostram que a suplementação de iodo no período pré-gestação, gestação e aleitamento de mães que tinham hipotireoidismo ou aumento de anti – TPO, reduziram o risco destas mães apresentarem problemas de tireoide pós-natal.

O que vem sendo observado hoje em dia em áreas onde a deficiência de iodo foram corrigidas, foi um aumento dos quadros de doenças auto imunes da tireoide, entre elas Basedow- Graves e Tireoidite de Hashimoto. Isto vem chamando a atenção dos cientistas no mundo todo, que partiram seus esforços para determinar a causa deste aumento.

Para isso vários estudos vem sendo conduzidos pelo mundo e foi determinado que alguns fatores genéticos hereditários fazem parte deste processo mas que para terem uma expressão estão associados á fatores externos como: baixo peso ao nascer, aumento de estrógenos, envelhecimento, stress, algumas drogas, baixa concentração de selênio e iodo.

Iodo?, você deve agora estar se perguntando.

Isso mesmo, iodo, mas agora não a sua falta, mas ao seu excesso.

Isso foi comprovado em diversos trabalhos pelo mundo:

- Os EUA comprovaram um aumento das doenças auto imunes da tireoide (sendo que a tireoidite de Hashimoto é em disparado a maior prevalência mundial),após à suplementação populacional de iodo.

- Estes dados se repetiram na Grécia e no Japão e até aqui mesmo no Brasil.

-  Na região de Reggio Emilia, na Itália, uma área onde há carência de iodo, foi  observado um total de apenas 1% nos casos de tireoidite de Hashimoto.

Bom, frente as evidencias, novos estudos foram feitos em ratos e constatados em humanos pós morte, e o que observou-se foi o seguinte:

O aumento de iodo dentro da célula tireoidiana causa uma toxicidade direta devido à uma alteração da tireoglobulina e do aumento da oxidação da tireoperoxidase,  o que aumenta a quantidade de radicais livres levando à uma apoptose celular ( morte celular) e degeneração da glândula, por isto que nestes casos ao ultrassom, a glândula aparece diminuída, podendo com o tempo transformar-se num câncer de tireoide.

Além disso, o excesso de iodo dentro da célula causa uma diminuição da produção de hormônio tireoidiano, efeito denominado de Wolf-Chaikoff. Vindo daí todos os sintomas de hipotireoidismo com todas as suas consequências.

Precisavamos de mais comprovação, já que alguns adeptos do uso de lugol hoje em dia, defendem  uso por todos deste suplemento e bingo: exames de urina feitos em várias regiões do mundo, mostraram a realidade, sobre o que estava ocorrendo:

- Para vocês terem uma idéia, o normal do nível de iodo na urina é de cerca de 100 à 199 µg / litro em 24 horas. Os achados mostraram que a maioria das amostras apresentavam doses muito mais altas do que isso,chegando à 3000 µg/litro por dia.

- Comprovado este excesso, precisávamos descobrir a causa deste excesso e fomos então analisar o sal de cozinha e descobrimos que ele mais uma vez era o grande vilão, por dois motivos: primeiro pelo excesso de uso e segundo pela falta de padronização na produção o que causava quantidades muito diferentes de concentração deste suplemento no mesmo lote de todas as marcas.

Este problema tende a ser resolvido em primeiro lugar fazendo campanhas para adequação do uso de sal tanto pela população em geral como pela indústria alimentícia. Em segundo lugar, mudando legislação e vigilância.

Neste quesito o governo brasileiro está de parabéns, em 26/05/2003, lançou uma resolução normatizando que a quantidade de iodo no sal deve ficar entre 20 e 60 mg por cada quilo.

Além disso, estamos fazendo periodicamente inspeções na qualidade do sal em diversas áreas do país. O que vem se notando é uma crescente melhoria do nosso sal, sendo que na última vistoria tivemos uma porcentagem de inadequação próxima a zero.

Frente a todas estas considerações, mais uma vez bato na tecla: precisamos sempre do equilíbrio. O excesso e a falta fazem mal da mesma maneira, por este motivo, não saia por aí suplementando. Você pode estar causando um grande prejuízo a sua saúde.

A suplementação de iodo deve ser feita apenas em áreas endêmicas de falta de iodo, na gravidez em casos específicos. Fora estas indicações, só faça suplementação se necessário e isto se comprova com um exame de iodo urinário de 24 hs.

Espero ter respondido as suas dúvidas sobre o assunto.

Dra Liliane Lemesin
CRM:80 189