O que o álcool pode causar no seu organismo: sistema digestivo

O etanol, álcool da maioria das bebidas, é uma molécula simples que se move facilmente através das membranas celulares, equilibrando-se rapidamente entre o sangue e os diversos tecidos do nosso organismo. O nível de álcool no sangue é expresso em miligramas por decilitro (por exemplo: 100 mg/dL equivale à 0,10 g/dL).
Nosso fígado consegue metabolizar e excretar apenas 1 dose de álcool por hora, o que corresponde a um nível de 0,02 g/dL (1 latinha de cerveja, uma taça de vinho, uma dose de cachaça). É justamente aí que mora o perigo.

Quando tomamos altas doses de álcool, este fica circulando por muito tempo pelo organismo e desta forma causando seus malefícios. Por isso, mesmo que não haja dependência química, os bebedores pesados de álcool, vão sofrer as consequências do seu uso abusivo.

Isto tudo piora, porque a maioria dos bebedores, o fazem de estomago vazio e isso vai fazer com que a absorção do álcool ocorra imediatamente. Sabemos que esta absorção já começa, mesmo que em pequenas quantidades, na boca e no esôfago.

Como eu disse anteriormente, o álcool, é uma molécula de fácil penetração dentro das células e dentro delas ele começa a causar estragos. Já que por ser uma fonte de energia, ele é metabolizado na mitocôndria e no citoplasma das células, originando aumento de radicais livres, que geram stress oxidativo e danificam a célula.

Ao entrar em contato com a boca, ele começa sua absorção, como falei anteriormente e esta produção de radicais livres nas células epiteliais da orofaringe acabam sendo responsáveis pelo aparecimento de câncer nestes órgãos e isto se perpetua em todo sistema digestivo, porque pessoas que bebem demasiadamente acabam lesando a mucosa gastroesofágica levando o aparecimento de gastrite, esofagite, úlcera e posteriormente câncer.

Ao ser absorvido e cair na corrente sanguínea, o álcool vai sofrer sua metabolização no fígado, num processo denominado de detoxificação e que é feito no citocromo P450.
O citocromo P450, é de suma importância no processo de metabolização de vários produtos tóxicos no nosso organismo e quando ele está ocupado por grande quantidade de álcool, ele acaba não fazendo seu trabalho corretamente, pois está totalmente sobrecarregado, desta forma, produtos tóxicos acabam circulando de uma maneira mais intensa pelo nosso organismo e acabam afetando o corpo por inteiro. É por isso que bebedores pesados tem mais efeitos colaterais ao uso de medicamentos, principalmente barbitúricos, salicilatos, acetominofen, antidepressivos e drogas.

Dentro da célula hepática, o álcool começa a causar seus danos. Além do aumento de radicais livres produzidos dentro do hepatócito o que vai acabar gerando sua destruição, o álcool atua nos receptores de insulina, tornando-os resistentes e causando uma hiperinsulinemia com todos os seus danos, falo sobre isso nesta matéria.
O aumento da resistência insulínica vai gerar uma alteração no metabolismo energético do organismo predispondo a um pré-diabetes, aumento de triglicerídeos circulantes e hipercolesterolemia.

 Ainda neste quesito, sabemos que o álcool atua inibindo a absorção de vitaminas do complexo B.  Sabemos que estas vitaminas estão muito ligadas ao metabolismo energético, mas não só isso. As vitaminas B6, B9 e B12 participam ativamente de um outro processo de detoxificação hepático, denominado metilação. Quando este processo está prejudicado, teremos o acúmulo de um produto denominado homocisteína. A homocisteína aumentada em nosso organismo vai propiciar aumento da produção de placas de colesterol nas artérias (aterosclerose) mas principalmente alteração na metilação de histonas. Este processo de histonas é responsável por alterações epigenéticas em nosso organismo e daí o aparecimento de câncer.

Como vocês podem ter percebido, o uso crônico de álcool em altas doses aumenta o risco do aparecimento de câncer em todo o organismo por dois motivos: aumento de stress oxidativo que lesa as células e por aumento de histonas e mudanças epigenéticas.

Ainda no fígado, o álcool vai agir nas células de Kupfer; estas células são macrófagos (células de defesa) que são responsáveis pela destruição de produtos tóxicos das bacteremia no fígado.

Bom a imunidade, destes indivíduos acaba alterada, não só por causa das células de Kupfer, mas por outros motivos, a saber:

- O álcool altera a secreção gástrica o que propicia um descontrole da flora bacteriana intestinal, processo denominado de Disbiose. Ora, esta flora intestinal atua com alguns receptores intestinais, denominados toll like receptors, que atuam diretamente regulando a imunidade.

- O álcool atinge também dois órgãos responsáveis pela produção de células de defesa do organismo, o baço e o timo. Alterados estes órgãos, ocorre uma alteração nas células denominadas natural killer, linfócitos B e linfócitos T

- Ocorre aumento de substâncias inflamatórias como fator de necrose tumoral, interleucinas e moléculas de adesão.

Bom desta forma, o indivíduo que utiliza de álcool em altas doses acaba tendo um aumento na probabilidade de desenvolver infecções, principalmente respiratórias, mas também hepatites, HIV, sepse.

Neste momento você deve estar pensando, nossa doutora é muita coisa!

É sim e isso apenas por alteração no sistema digestivo.

O uso crônico de álcool, vai acabar destruído o fígado causando hepatite alcóolica, esteatose, cirrose e câncer, nesta ordem. Além é claro de alterar a produção de bile, pela vesícula biliar, o que causa problemas digestivos, juntamente com alteração das enzimas pancreáticas.

Por este motivo, a maioria destes indivíduos apresentam queixas digestivas, como dificuldade de digestão, aumento de gases e distensão abdominal. Ainda no quesito digestão, eu disse mais acima que o álcool altera a flora bacteriana intestinal e uma destas alterações é o aparecimento de bactérias fermentativas tanto de carboidratos como de produtos lácteos, o que acaba gerando sintomas de intolerância a estes alimentos (carboidratos simples e derivados lácteos).

No pâncreas, além da alteração das enzimas digestivas, ocorrerá um processo inflamatório levando a um quadro de pancreatite crônica e câncer.

Resumindo, o consumo exagerado de álcool, ao longo do tempo vai causar, no sistema digestivo:

- Gastrite, esofagite e úlcera, por agredir a mucosa gástrica e diminuir a secreção de ácido clorídrico.

- Alteração da flora bacteriana intestinal, causando disbiose, com todos os seus efeitos.

- Pré diabetes e posteriormente diabetes tipo2 por propiciar resistência à insulina nas células hepáticas.

- Alteração da imunidade.

- Aumento de colesterol, triglicerídeos e consequentemente de placas  de gordura nas artérias.

- Hepatite crônica, esteatose, cirrose e câncer hepático.

- Má digestão por alteração da vesicula biliar e pâncreas.

- Pancreatite crônica e câncer de pâncreas.

- Desnutrição.

- Câncer em diversos órgãos do organismo, mas principalmente boca, esôfago, estomago, intestino, hepático, pancreático, bexiga, próstata e mama.

Bom acredito que esgotei as alterações do uso excessivo de álcool no sistema digestivo, na matéria a seguir vamos falar como ele afeta os outros órgãos.

Até mais!

Dra Liliane Lemesin

CRM: 80189